Modos da escala maior parte 3

Quando seis não é meia dúzia…

^^

Um dos erros mais comuns ao se lidar com modos da escala maior é tentar aplicá-los sem cuidado.

“Opa, tem um acorde maior ali, mete Lídio que fica massa, eu li na GuitáPlêie!!!”

A coisa não é simples assim…

É fundamental que entendamos a diferença entre harmonia modal e harmonia tonal antes de sair tocando Dórico em todos os acordes menores que encontrarmos.

Harmonia modal é por natureza muito diferente da harmonia tonal. Podemos ficar aqui por um longo tempo discutindo os pormenores de cada uma delas, mas para o nosso estudo, basta saber por enquanto o seguinte: Harmonia tonal depende fundamentalmente da resolução do trítono!

Funciona assim: todo o sistema tonal pode ser reduzido ao jogo entre tônica e dominante, usando notas brancas, entre os acordes de C e G7, especificamente, entre as notas C, E, B, F.

Representação gráfica da resolução do trítono na escala maior por resolução do V grau dominante para o I maior...

Esqueça por um momento o movimento do baixo, G -> C, o motorzinho que faz girar a engrenagem tonal é o movimento que fazem as notas B ->C, e F ->E.

Isso é chamado por alguns de “resolver o trítono”. Tínhamos a estrutura mais esquisita da nossa paleta sonora, a representante da discórdia e talz, (na idade média pessoas foram executadas por apenas tocar esse intervalo!) e de repente, temos o cerne de um acorde maior, bonitinho e feliz como só uma terça maior sabe ser. Algo como uma ovelhinha de algodão doce jogando amarelinha com um ursinho carinhoso sorridente…

Sim, estou simplificando, não vou falar da escala menor, mas em seu representante maior, isso é tonalismo!

Já no modalismo, o buraco é mais embaixo… Na verdade, não há um buraco!

Caso apareça um trítono, ele não será resolvido. Entenda que o uso humano de harmonias modais precede o uso humano de harmonias tonais por várias centenas de anos, e embora hajam semelhanças, não podemos misturar alhos com bugalhos! Harmonias modais se caracterizam por ter geralmente um baixo pedal, só uma nota, a tônica do modo, sendo tocada à exaustão.

Isso funciona como uma “âncora” sonora, forçando todas as outras notas a soarem ao redor da tônica, criando assim a aura completa e real do modo que estiver sendo executado. Fora o baixo pedal, são tocadas outros “grupos de notas” à guisa de “acordes”. Note, não são acordes, e classificá-los como tal seria um engano. Tomate está na salada e é vendido junto com verduras e legumes, mas é fruta! Todas essas notas, somadas à melodia, criam a atmosfera modal.

Se porventura acontecer de soar um trítono, ele não é resolvido, pois não haverá mudança de baixo e nem aquele movimento de “abrir” o trítono (B ->C e F ->E). As estruturas que são tocadas em cima do baixo pedal não são nossas formas usuais, tríades, tétrades, etc… Podemos tocá-las também, mas a paleta de estruturas é bem mais rica que isso. Intervalos, estruturas em quartas, quintas, segundas, quase tudo vale, contanto que esteja contido na paleta sonora do modo.

“Ah, é como se fosse um acorde então tocando até encher o saco??”

Não.

Procure ouvir boas músicas indianas, ali você encontra vários exemplos magníficos de modalismo de verdade, não metaleiros cabeludos com guitarras pontiagudas masturbando seus tocos de madeira com E Dórico. Isso não é modalismo!

Então, quando temos uma progressão que resolva o trítono, como por exemplo,

//: Cmaj7 / Amin7 / Fmaj7 / G7 ://, você pode tentar tocar o modo Jônico de C até cair duro, isso NUNCA vai soar Jônico. Por um motivo apenas: a harmonia não é modal, é tonal.

Maurício Lavenére, um antigo professor meu, me ensinou um truquezinho bem legal pra contornar esse tipo de situação: Não toque o trítono! Em vez de tocar o G7, toque um Gsus4, por exemplo. Não resolve o problema, continua sendo uma harmonia tonal, mas facilita muito a vida do improvisador que quer soar Jônico.

Outro professor meu, Frank Gambale, diz que, pra resolver o problema do que tocar para ter a “cara” de uma harmonia modal, devemos manter a tônica do modo no baixo e em cima dela, tocar as duas tríades maiores vizinhas, nesse caso, o F e o G, ambos com o C no baixo. (Pensando tonalmente, mantenha a tônica do modo no baixo e toque tríades IV e V da relativa maior em cima dela, segundo ele, funciona pra caracterizar qualquer um dos modos da escala maior!)

Um caso bem comum de “modalismo” é quando se toca

//: F / G ://

“Oba, F lídio!!!!!” Bom, quase… Se o nosso baixista mantiver o F no baixo, sim, isso vira Lídio, se não mantiver o F de baixo pedal, vai ser um IV V pra C que não resolve, fica só ali no quase…

Aliás, esse movimento é bem comum em música, outro exemplo de não (coff) não sai de cima é //: Dmin7 / G7 ://, que é usado como harmonia para o modo Dórico. Funciona, né… mesmo caso que o outro, um exemplo musical perfeito de “não tem tu, vai tu mesmo…” Não é modal, mas fica sendo.

A falta de tempo me impede de gravar isso para você, assim que eu puder posto arquivos de áudio para exemplificar tudo isso.

O mais importante para você tirar desse post é o seguinte: quase sempre que você ouvir alguém falando de modos da escala maior, provavelmente o que estará soando não será modal, e sim uma sombra modal num universo tonal. Temos a mania de pensar em modos da escala maior como uma ferramenta melódica apenas, fazendo com que seis não seja meia dúzia. Se tivesse a outra metade (a harmonia), aí eram outros quinhentos… ^^

Abraço!!!

Edu

About Edu Élleres

Guitar teacher turned neuroscientist turned guitarist, passionate and obsessed with finding better ways of teaching music.
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11 Responses to Modos da escala maior parte 3

  1. Felipe says:

    Modal, Tonal, Nagual, que dificil hahhahaah Brincadeira! O assunto é complexo mas obrigado por se dedicar a iluminar as trevas da ignorância! Enquanto não me ocorre o satori modal vou abrir o Guitar Pro mesmo heheheheh Abraço!

    • Edu Élleres says:

      Grande ferramenta o Guitar Pro, meu amigo Felipe!!
      E só dê um pouco de tempo ao tempo, modos não é um assunto impossível, mas fala-se tanto e sinceramente, tão mal sobre eles, que eles ganham uma complexidade que na realidade não existe… Eu vou continuar a falar sobre modos, e devagar, não sei quantos posts levarei pra cobrir todo o assunto à contento, mas é um assunto que me fascina muito, vou dividir com vocês tudo que eu souber sobre cada um dos modos, com prazer!!!
      Fique por aqui, meu amigo, e exponha suas dúvidas, será um prazer ajudá-lo!!!
      Abraço!!

      Edu

  2. Uder says:

    ahm…. preciso de um dicionário!

  3. Hugo Maia says:

    Boa Dudú!

    É interessante como existe nas pessoas um bloqueio em relação ao aprendizado certo dos Modos.
    Para uns é tudo a mesma coisa. “Se eu fizer uma escala maior partindo do segundo grau desta estou tocando Dórico…” Ilusão! Ou seria desilusão.

    No trânsito para o trabalho, ligo o rádio e toca um pagode tonal, mudo de estação e pinta um breganejo tonal, daí mudo de estação de novo e o chibinha manda na guitarra um som do Pará, ACREDITE TONAL.

    Isto posto, fica claro que estamos acostumados a ouvir muita coisa tonal.
    Acredito que o erro está em se ensinar harmonia tonal primeiro (que é o feijão com arroz de todos os dias).
    Também não esqueço das aulas do Iço falando das notas “proíbidas” na harmonia modal. Para mim é proibido proibir. Parabéns pela definições meu caro! Grande abs
    Hugo

    • Edu Élleres says:

      Sempre um prazer ter você participando, meu amigo!!!
      Essa coisa da harmonia é incrível, somos imersos nela de um jeito tal que estranhamos muito quando expostos ao universo modal de verdade, não aqueles verdadeiros “empréstimos modais” de um ou dois compassos, os quase modalismos de modinha e a frase da semana da Guitar Wowrlflins…
      Tudo a favor do Blues Dórico, mas que os modos sejam respeitados também, né…
      Grande abraço, meu amigo!!!!

      Edu

  4. Alu says:

    Nuss… q doidera. Me piro o cabeção! hehehehe

    Tell me more!!!

    \,,/ òó \,,/

    • Edu Élleres says:

      Bem vindo, Alu!!!
      Eu adoro essa estória de modos, velho…
      E os jazzistas que me perdoem, nós que viemos do metal estamos muito mais próximos dos modos que eles!
      Baixo pedal é o nosso nome, oras!
      Acompanhe a série, eu vou destrinchar os modos direitinho, não vou deixar dúvida nenhuma voando, meu amigo.
      Qualquer coisa me pergunte, irmão!!

      Abraço, Alu!

      Edu

  5. Marcelo Souza says:

    Edu,

    E quanto à harmonia de blues, em que tudo é dominante e nada resolve. Como é que fica a história?

    Abraços!

    • Edu Élleres says:

      Ah, Marcelo, Marcelo…
      Sempre fazendo aquelas perguntas que não tenho como responder rápido e rasteiro.
      Olha, irmão… pra responder isso, vou precisar de tempo, é um assunto muito interessante, sobre o qual eu tenho uma visão bem não ortodoxa…
      Mas saiba, essa série vai dar o que falar…

      Abraço, irmão!!!

      Edu

  6. O Edu é o kra no nosso país .. eu li na GuitáPlêie!!! (gostei hehehe)

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